Beltane (HS 31/10 HN 01/05)
Dentro da mitologia da roda do ano, o Sabbat de Beltane representa "O Grande Casamento" dos Deuses. Momento em que o Deus, em seu aspecto de Gamo-Rei fertiliza a Deusa, trazendo abundância para a terra.
Enquanto o Beltane contemporâneo é frequentemente celebrado como um festival de fertilidade e alegria, suas raízes históricas revelam complexas camadas de significado que evoluíram através de séculos de transformação cultural. Este artigo traça a jornada do Beltane desde suas primeiras menções documentadas até sua reconstrução no movimento neopagão moderno.
1. As Primeiras Menções: Fontes Medievais Irlandesas
Sanas Cormaic (c. 900 d.C.)
No glossário do Rei-Bispo Cormac mac Cuilennáin encontramos uma das definições mais antigas:
"Belltaine... i. bil-tene i. tene soimm i. tene shomaim no bi túised each n-dara cind forsin tene sin no bi didiu"
("Beltane...isto é, fogo auspicioso, isto é, um fogo de duas chamas que eles costumavam fazer com grande encantamento nesse tempo")
Lebor Gabála Érenn (Século XI)
Menciona a chegada dos Tuatha Dé Danann à Irlanda coincidindo com o festival de Beltane, sugerindo sua antiguidade na tradição irlandesa.
A passagem mais significativa ocorre na Quarta Invasão - a dos Tuatha Dé Danann:
"Is iad so Tuatha De Danann... do-rochtatar Erind ceta la Beltaine i n-llbaith"
("Estes são os Tuatha Dé Danann... que chegaram à Irlanda primeiro no dia de Beltane em nuvens escuras")
2. Práticas Históricas Documentadas
Rituais de Fogo e Proteção
Segundo Ronald Hutton em "The Stations of the Sun":
· Os fogos de Beltane eram acesos pelos druidas (posteriormente pelos sábios da comunidade)
· O gado era conduzido entre as chamas para purificação antes da transumância de verão
· As famílias apagavam suas lareiras domésticas e reacendiam com brasas do fogo comunitário
Evidências Etnográficas
Kevin Danaher, em "The Year in Ireland", documenta:
· A coleta de flores amarelas (primrose, furze) para decorar casas e estábulos
· O preparo de alimentos específicos: bannock de Beltane (pão achatado)
· Práticas divinatórias relacionadas ao casamento e prosperidade
3. O Contexto Sazonal na Economia Agrícola
Anne Ross em "Pagan Celtic Britain" enfatiza:
"Beltane marcava o início da estação de pastoreio de verão, quando o gado era levado para as pastagens montanhosas. Os rituais de proteção não eram meramente simbólicos, mas essenciais para a sobrevivência econômica."
4. Possível conexão com o Deus Belenos
No paganismo moderno, o deus Belenos é considerado o Deus celebrado no Sabbat, usando a etimologia Bel, para a possível tradução do nome do Sabbat para "Fogos de Bel". Porém, essa associação tem pouco amparo histórico.
Ronald Hutton em "The Stations of the Sun" alerta para alguns tópicos importantes:
• Belenos era adorado na Europa continental, não nas Ilhas Britânicas.
• Nenhuma inscrição ou referência a Belenos na Irlanda ou Grã-Bretanha.
• Beltene pode vir de belo-te(p)niā ("fogo brilhante") sem referência divina.
John Rhys (estudioso galês) popularizou a conexão Bel/Beltane, e este foi adotado por movimentos neopagãos da atualidade.
O Beltane nunca foi um festival estático. Desde suas origens como ritual agropastoril essencial até sua atual expressão como celebração espiritual, ele demonstra a notável capacidade das tradições de se transformarem enquanto mantêm seu núcleo simbólico.
5. Celebrando na modernidade
Sabemos que é impossível acender uma fogueira no meio da selva de pedras, então vamos adaptar a ritualística de Beltane para o nosso cotidiano, sem perder o simbolismo.
Nesse Sabbat são celebradas as divindades relacionadas a fertilidade. Podendo ser celtas ou não – essa parte faz mais sentido se você foi wiccano.
Purificação de Beltane
Após abrir o círculo mágico e fazer todas as invocações, você pode fazer várias atividades.
Darei dois exemplos simples e fáceis para vocês:
Separe duas velas vermelhas e coloque-as paralelamente. Você, seus filhos, familiares e animais, irão passar entre as velas, como em uma procissão. Peça limpeza e proteção durante o período de Beltane.
Confecção do Maypole
Esse item pode ficar no seu altar até o próximo Sabbat, sendo queimado no próximo Beltane para dar lugar ao novo.
Você vai precisar de um galho de árvore reto de mais ou menos 15cm dê altura e um dedo de grossura.
Fitas coloridas: verde, vermelho, amarelo, laranja e marrom.
Uma fita branca para acabamento
Um vaso de planta com terra.
Pegue o galho e na ponta, cole uma fita de cada cor, e colo acabamento coloque a branca na ponta, cobrindo tudo.
"Plante" esse galho na terra, deixando bem firme.
Consagre aos fogos de Bel, pedindo fertilidade e alegria.
Receita de Bannock de Beltane
Bannock é um pão tradicional de Beltane, feito até os dias de hoje. Existem várias versões da receita, mas eu achei essa mais democrática.
Para um bannock, você vai precisar dos seguintes ingredientes:
· Farinha de aveia (120g)
· Bicarbonato de sódio (uma pitada)
· Sal (uma pitada)
· Manteiga (1 colher de chá – use sem sal)
· Água quente (cerca de meio copo/120ml)
Instruções:
1. Misture a farinha de aveia, o sal e o bicarbonato de sódio em uma tigela. Faça uma pequena depressão no meio da mistura.
2. Derreta a manteiga e adicione-a ao espaço que você fez na mistura.
3. Misture tudo e, em seguida, adicione água quente suficiente para formar uma massa firme. Modele essa massa em forma de bola.
4. Polvilhe um pouco de farinha de aveia em uma tábua de pão ou superfície limpa. Pegue a sua bola de massa e abra-a com um rolo, formando uma panqueca fina (algumas receitas sugerem cerca de 3 mm de espessura) com cerca de 13 a 18 cm de diâmetro. Se a massa estiver ficando pegajosa, passe mais farinha de aveia seca em ambos os lados.
5. Aqueça uma chapa ou frigideira em fogo médio. Coloque o seu bannock (você pode sempre cortá-lo em pedaços triangulares (se for mais fácil) ou fazer pequenas panquecas.
6. Cozinhe até dourar.
Bibliografia para Aprofundamento
1. HUTTON, Ronald. The Stations of the Sun: A History of the Ritual Year in Britain. Oxford, 1996.
2. DANAHER, Kevin. The Year in Ireland: Irish Calendar Customs. Dublin, 1972.
3. ROSS, Anne. Pagan Celtic Britain: Studies in Iconography and Tradition. Londres, 1967.
4. Ó SÚILLEABHÁIN, Séan. Irish Folk Custom and Belief. Dublin, 1967.
5. FRAZER, James. The Golden Bough: A Study in Magic and Religion. Londres, 1890.
6. GREGORY, Augusta. Mitos e Lendas da Irlanda Celta - Volume I: Deuses e Guerreiros. Tradução de Ronaldo G. de S. B. Militão. 1. ed. São Paulo: Editora Lafonte, 2023. E-book. (Mitos e Lendas Celtas, 1). Disponível em: https://www.amazon.com.br/Mitos-Lendas-Irlanda-Celta-Guerreiros-ebook/dp/B0F6V7G3F9.





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